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"Xéf" - É fino passar fome...

por Gajo, em 04.04.16

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Hoje em dia o que é um restaurante bom tem vindo a sofrer alterações. Hoje um restaurante bom, já não é um restaurante, mas sim um "espaço para disfrutar", onde o "chef" (isto tem de ser dito com contração do abdominal… "xéf"...ganda pinta hem?) adota um nome também gourmet, tipo François de Mendonça, para dar o ar aquele ar que o tomate-cereja vem da região demarcada de Bordéus. Estes "espaços", se o "xéf" estiver à rasca de dinheiro, podem sem abertos numas ruinas ou armazéns, sendo apresentados como "espaços rústicos", que pretendem captar a essência do local.

 

Antigamente íamos a um restaurante comer, agora vamos a uma cena em que temos de levar um poliglota para decifrar a ementa, se não queremos fazer figura de ursos; e uma lista de todas a ervas e ramagens que normalmente ninguém conhece ou tem na cozinha. Uma pessoa que seja alérgica a coisas e não saiba está à rasca nestes restaurantes. Nunca sabe o que está a comer. Peixe e carne é o básico, mas o resto que eles inventam para cobrar 100 euros por pessoa é que é o problema. (Por exemplo, amendoins são uma iguaria que em restaurantes que querem a estrela do penu, combinam com tudo, desde a entrada à sobremesa, e ainda os podemos levar no bolso para enganar a fraqueza mais tarde).

 

Igualmente fundamental, num antigo bom restaurante, o prato tinha de vir bem composto de comida; nos novos restaurantes é um insulto um prato trazer comida que sacie a fome da pessoa. É fino que o cliente saia do restaurante cheio de fome, pois ele não vai jantar, "mas disfrutar de "experiências" e " combinações de sabores". Por exemplo: mel envolto numa colher de mostarda com smarties, que tempera uma pequena ripa de robalo, robalo apanhado enquanto fazia crossfit, daí o sabor impar que tem, é uma experiência única. São raros os robalos atletas. Este prato poder-se-ia chamar: "Rouball au Crossfi". Importantíssimo um fio de azeite em forma de onda a sujar o prato, que dê a ideia que é preciso ir à máquina para lavar. Normalmente um prato destes é uma descoberta do "xéf", que esteve no Brasil 15 dias, calhando ter apanhado a altura do carnaval. Um pedaço de hortelã no prato para encher, pode atirar o imaginário para a Amazónia. É preciso dar lógica à fome que passamos. Se entrarmos no espírito, com um pé de salsa,  só não vemos um jacaré e um indio se não quisermos.

 

Nos bons restaurantes antigos, pagava-se a quantidade de comida, nestes novos bons restaurantes, paga-se a quantidade de prato que leva os apontamentos de comida. Um pires chegava e ainda poupavam na loiça. É só uma sugestão minha. A cozinha de um restaurante fino é feita a pensar em qualquer coisa "que nos faça viajar": a pensar "no mar", ou na "história portuguesa". Ou seja, além "da combinação de sabores", ainda pagamos mais 20 ou 30 euros para pensarmos numa coisa que já pensamos quando comemos um carapau ou um cozido.

 

Nestes restaurantes "fashion" um carapau  "alimenta" 4 pessoas e para fazer um cozido, basta uma pequena cirurgia à vaca, pois não vale a pena matar o bicho para a quantidade necessária. Se forem só duas refeições o animal fica só com uma pequena ferida. Isto é verdade, já vi acompanhamentos para beber uma imperial mais robustos que determinados pratos nestes restaurante de "luxo".

 

No entanto, se admitirmos que não nos conseguimos alimentar com "combinações de sabores, somos considerados labregos, que têm o rótulo de "pobres" gravado na testa. É de bom tom, que quando nos apresentam a conta, façamos um ar que não é caro. Aliás, até é barato "para o sítio". "Ontem fui ao "espaço maison", paguei 200 euros por uma lasca de javali, uma batata anã, e meia folha de alface e não achei caro". 

 

Pessoalmente se for assaltado insisto a que pelo menos me apontem uma navalha, ou sejam das finanças, em sinal de respeito. Mas isto sou eu!

 

A música é chillout para relaxar. Convém que a pessoa relaxe e fique com sono. Quando temos sono comemos menos para não irmos para a cama de barriga cheia. Se põem um rock têm que ir para a cozinha fazer bitoques gourmet.

 

Os empregados são simpatiquíssimos e andam em pontinhas dos pés, normalmente como se estivessem assados, para dar aquele aspecto elegante. Trazem a conta sempre recipientes fechados, tipo caixas da "Dinastia ,Ming" compradas na loja dos "trezentos", mas que nos fazem acreditar que estamos em Las Vegas. Fino é hoje, comer pouco e pagar muito. Pagar pouco e comer bem, está démodé.

 

Depois disto tudo e  de "experimentarmos os sabores", arrancamos para uma roulotte para finalmente jantarmos.

 

A minha sugestão final para quem vai a estes sítios é que antes avie um farrajão de pão, nem que seja barrado em Vaqueiro, só por via das dúvidas...

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publicado às 02:15


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